quarta-feira, 5 de setembro de 2018

VALE A PENA VIVER?

Depois de uma semana duríssima, acordei alegre vendo o céu azul e as minhas andorinhas. Me arrumei e vim para o Freud. Na porta do apartamento eu vi a foto da tragédia do Japão, a pior dos 25 anos, comecei a esmorecer um pouco. Eu pensava em escrever uma coisa completamente diferente, eu pensava em escrever que apesar de tudo, vale a pena viver. Doce ilusão. Tudo uma quimera. Luto há 40 anos contra o quadro depressivo profundo e não veio, da parte de ninguém, quem passasse a mão na minha cabeça. Apenas coices, não recebi nem do doutor Henri Kaufmanner um alento. Se eu tiver uma chaga no peito, mostrando tudo o que já sofri em carne viva, talvez alguém nesse mundo poderia suspeitar que eu sofro. Mas não, nem desconfiam. Acham até que eu sou de aço inoxidável, até aço inoxidável arranha. Meu coração está para lá de machucado, desde a minha infância. Vale a pena viver?
Talvez por isto volta e vem a minha cabeça, o monólogo de Hamlet de Shakespeare. Parece, e não sou paranóica, que o mundo de hoje não gosta de te ver feliz, pelo contrário. Gosta de ver você no esgoto, a tal da luta antimanicomial só serve mesmo é para tolos, nunca participarei de algo dela. Fui internada em novembro do ano passado e vi as benécias profetizadas por esse tal de Paulo Delgado, e olha que pelo menos desta vez eu não fiquei no pior dos andares como foi na primeira vez, aos 27 anos de idade.
Pergunto, a quem quiser ler este texto, onde estão os meus sonhos? Onde está a minha vida? A minha alegria? Acabou tudo, se é que algum dia existiu. A vida é apenas um montinho de areia na palma da mão e que vai escorrendo pelo meio dos dedos e quando você menos percebe, a sua mão está vazia.
Minha mãe está com 93 anos, incapaz de dar um passo sem ajuda. Deus sabe que se eu pudesse eu dava o resto da minha vida para ela, porque tenho horror desse século medíocre, desse século do engodo, do descaso, do sofrimento que as pessoas mesmo fazem. Mas é isso que o ser humano quer, por fogo na fogueira. Eu, que sou uma idiota, não passo de nada mais do que isso, tento, ou já tentei muito nesses quase 7 anos que eu estou aqui, tudo.
Sinto muito, eu não quero continuar mais. Vou levar a vida como uma rickettsia, o menor dos microorganismos, e deixar o mundo para lá.



Maria Helena Junqueira Reis
05 de setembro de 2018

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