quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

O Primeiro Input

      Foi numa madrugada de chuva fina que Zé Binário conheceu Maria Mainframe. Ela grande, enorme, quase gorda, ou como ela gostava de dizer: “sou de grande porte”. Ele parecia mais uma placa de CPU. Fino, magrelo, compactado mas muito capaz. O problema dele era ser binário, ou excessivamente binário. Para muitos analistas de sistemas psíquicos, ele seria um psicótico, um bipolar, com variações de humor radicais.Tudo era 0 ou 1.
    Maria Mainframe era Maria, apesar de Mainframe. Apesar de sua bipolaridade, era feminina. Havia uma zona escura, por assim dizer, na evolução tecnológica, quase humana daquela “Main”. O ambiente desta estória poderia ser DOS ou Windows, mas a bela lei do acaso misturou as coordenadas e o ambiente era só uma sala fria com ar condicionado.

    Zé Binário passara a noite desenvolvendo um software. Iria ficar rico. Aquela era uma das inúmeras noites nas quais ele desenvolvia seu programa. Main processava as informações do Zé. Ele olhou para o clock. Três e quarenta e três. Que sono, vontade de tomar banho, fritar bacon com ovo e tomar coca-cola. Comer algo, já que não estava ainda em moda, comer chips com azeite e sal. Zé Binário olhou em volta. A sala estava um pouco desarrumada, mas nem tanto. Não havia criança,esposa, bola de futebol ou indícios de uma vida conectada com o que todo mundo faz. Ele era eminentemente diferente. Estava mais conectado a fios e cabos,do que com a cotidiana realidade. Seus pais, não mais existiam. Seus irmãos desenvolviam seus enredos em outros arredores. Foi aí que o Zé Binário percebeu que seu mundo gravitava em torno daquelas máquinas e que isso não era bom ou ruim, era apenas diferente. Ele teve um raciocínio trinário e isto era um sinal de progresso. A Main continuava processando, outros de pequeno porte também. Havia mais do que uma magia científica naquela sala, havia um input inicial que se chamava afeto. Afeto: palavra inexistente na linguagem computacional que quer dizer: afeição, amizade, amor.
    Zé Binário se afeiçoou pelas máquinas e descobriu principalmente sua ligação amorosa com a velha Maria Mainframe. Este tipo de amor é mais fácil de lidar. A gente briga, pára, desliga a máquina, sai do sistema, às vezes volta. Assim Zé Binário se apaixonou pela Main e se deu seu primeiro input. Tal qual um beijo que acelera todas as partículas atômicas, agora o Zé pode perceber que sua família era eminentemente mecânica. Havia afeto naquele monte de circuitinhos, placas e cabos que o circundavam e que o conectavam com milhões de pessoas, que como ele, pareciam tão sós e tão mecanizadas.



Maria Helena Junqueira Reis

AS PEDRAS DE BECQUEREL

              Não sou cientista. Gosto das histórias da ciência. Não as ouço ou as leio com histórias, mas como "estórias", pois sou uma "criança velha" que nasceu para ouvi-las e me encantar com elas. Apenas isto. 
               Outro dia meu pai me contou um caso de um físico. Henri, Henri Becquerel. Este físico tinha umas pedras que produziam um certo efeito em chapas, como as de um fotógrafo. Ele as entregou para o casal Curie, relatou os fatos e daí começaram os estudos de Pierre e madame Curie que os levou à descoberta do "radium".
               Procurei saber quem teria sido este tal de Becquerel. O caso das pedras me despertou curiosidade. Encontrei um verbete. Becquerel nasceu em Paris em 1852 e morreu em Le Croisic em 1908. Filho de Edmond Becquerel. Aliás a família era toda de físicos: Antoine César, o primeiro. Seu segundo filho, Edmond; Henri, filho de Edmond e Jean filho de Henri.
               Henri estudou a fosforecência, ganhou um prêmio da Academia Francesa em 1989 e o Nobel em 1903. 
               O que me deixou encantada na história das pedras foi o fato de Henri ter entregado tudo, ou seja, as pedras, as informações com suas respectivas observações. Não sei o que o teria levado a fazer isto. No mundo em que vivemos, cheio de patentes, direitos autorais e coisas afins, isto me soou muito estranho. No meio da estranheza uma "dica" para eu entender melhor a vida: cada um de nós tem uma coisa, no sentido mais amplo da palavra. Seria, idéias, sentimentos, músicas, sorrisos, trabalhos dos mais humildes aos mais complexos. Isto tudo me pareceu semelhante às pedras de Becquerel. Senti que estamos aqui para passarmos pedras adiante. Quem não as passa "fura" o jogo. Não dá para blefar com o verdadeiro dono das pedras.
              Assim como fez Becquerel, devemos proporcionar à humanidade a continuidade deste jogo pacífico, mesmo que hoje seja a maior das utopias. 
               Se de uma simples observação com pedras nasceu o brilho da radioatividade, talvez dos nosso simples corações possa nascer o brilho ou o sentido de nossas vidas.